sábado, 14 de outubro de 2017

Crônicas de vida e morte

Já não tinha mais noção do tempo. Perdera a noção do espaço semanas antes. A cama, que fora seu único refúgio nos últimos meses, se tornou uma espécie de nave espacial. Inicialmente flutuava dentro e entre os quartos alvos do hospital, então, encontrou uma fenda capaz de o proporcionar uma viagem inesquecível! De repente, ele se via naquela festa de trabalho. Era a sua promoção, poucas horas antes do acidente. Havia alçado a gerência que tanto sonhara, a casa no Leblon já estava sendo decorada e a terceira filha formaria em Medicina dali a um mês e meio. Era inevitável não visumblar a felicidade de um homem que via o ápice de seu esforço frutificado! O copo de Whisky sempre cheio já não fazia mais parte de sua rotina há anos, mas, naquele momento, se prestava como a coroa de louros do atleta que chegara a consagração. Ele não queria sair daquele momento, mas a nave continuou seu trajeto... A cena seguinte o chocou. Era sua filha, a mesma que formaria em medicina. Ela chorava, havia sangue entre suas pernas e uma massa disforme próxima. Um aborto?! Mas como era possível? Ele sempre fora rígido quanto as regras de Deus: só depois do casamento! Ela sabia disso, seguia os ensinamentos de Cristo, se batizou aos 12 por livre e espontânea vontade... Ela sofria naquele momento. Estava impresso em sua face. Mas desde quando? Entre os soluços do choro ela retirou uma foto do álbum de formatura do ensino médio. Olhou. Entrou em prantos. E, num ódio nunca visto antes, esfaqueou a foto antes se picota-la em pedacinhos. Mas era a foto da valsa, e era ele! Por que tanto ódio? Antes que a resposta viesse, a nave deu sinal de partida para mais uma cena chocante. Era o centro da cracolândia e ele estava de frente a um usuário que parecia estar num estado de semimorte. Raquítico, alheio, disperso... Sentiu nojo. Queria se afastar daquilo. Foi quando viu a falha na orelha esquerda. Não era possível... Era o filho problemático, o do meio! Sempre o amou, sempre o levou aos jogos do Vasco, sempre comprou os melhores carrinhos de controle remoto, sempre brincou de lutinha, sempre perguntou sobre as namoradas. Então, o bastardo se declarou gay aos 15 anos. Só podia ser essas revoltas de adolescentes... A única solução foi o mandar pro internato militar, do qual ele fugiu com oito meses de permanência e nunca mais se teve notícia. Não, aquilo não podia ser real... A nave tinha pressa, então, ele se deparou com a filha mais velha. Bem sucedida, advogada criminal renomeada e residente nos Estados Unidos, até que enfim algo bom! Lá estava ela com a sua terapeuta em uma de suas sessões. Falavam sobre trivialidades, até que a terapeuta perguntou se havia alguma evolução em relação ao tema principal. Em pouco tempo, percebeu que ele era o tema principal! "Não é possível! Ela só tinha 6 anos, como podia se lembrar disso? Foi antes de me converter. Cheguei bêbado em casa e a mãe dela se trancou no quarto pra eu não entrar. Então, fui ao quarto de minha filha e só a toquei de leve, pois ela já se assemelhava muito a sua mãe. Nunca faria uma coisa assim em sã consciência, não posso acreditar... Tentei correr em direção a ela, mas a nave se movera, e me deparei com o dia anterior ao meu casamento. Lá está minha mulher a conversar com sua irmã. Provavelmente essas futilidades de vestidos e maquiagens... Ela segura um papel com bastante vigor. Trêmula, entrega a irmã, que lê e acolhe o choro de minha esposa. Que papel seria aquele? Vejo que é uma carta de um homem. Leio brevemente o conteúdo e descubro que há juras de amor e que parece ser um relacionamento antigo e ainda em curso. Será então que ela havia casado por interesse financeiro, como os amigos solteiros haviam alertado? Ouço a conversa e, pra minha surpresa, descubro que meu sogro estava forçando o casamento. Seriam aquelas terras que meu pai doou a ele algo planejado? Como assim pude ser tão enganado? A nave continua... Lá estou eu no fim do ensino médio com a thurma! Aquilo sim eram amizades! Zuando com o nerd da coleção de selo, ele era hilário! Esse dia demos uma surra de cinta nele, mas foi de leve, só por diversão. De repente, a galera some e a cena muda. Lá está o nerd de novo, porém mais velho, em frente a um computador. Não é possível, está vendo conteúdos de mutilação, ele realmente é louco! Chega uma encomenda, ele a recebe. É uma grande caixa e dentro dela há um boneco bem realista. Ele coloca o uniforme da escola no boneco é o prende em uma pilastra grossa da casa. Tira uma cinta de uma gaveta milimetricamente arrumada e começa a surra-lo. As cenas se misturam naquele momento. A semelhança entre ambas é assustadoramente imensa... A nave começa a se mover quando percebo que o boneco está se mexendo, e é um ser humano... Não, já chega! Me concentro pra voltar pro quarto do hospital, mas a nave insiste em uma última parada. São meus pais, ainda antes do casamento. Adoro esta história: 'foi um amor avassalador, em menos de dois meses a pedi em casamento!'. Meu pai formando e minha mãe caloura do curso de Contabilidade. Ela não chegou a se formar. Descobriu que números não eram pra mulheres e decidiu se dedicar a família! E lá estão eles, antes de tudo acontecer. Meu pai, garanhão como sempre, tenta forçar um beijo, mas ela parece querer falar algo! Vejo o calendário do lado e é 1960, um ano antes do meu nascimento. Provavelmente é o dia que ele vai a pedir em casamento! A nave chega perto, e posso ouvir o diálogo. Ela fala que não veio de novo e que está grávida. Eu não fui prematuro? Não havia sido depois do casamento? Ahh, são só detalhes... Então, a reação do meu pai me surpreende. Ele imediatamente pede pra ela tirar! Ela se recusa e ele entra num estado incontrolável de raiva. Um espancamento. Então, com um canivete, ele esfaqueia 3 vezes o abdômen de minha mãe antes de deixar a cena correndo. Desmaiada, ela sangra até que uma faxineira a socorra. Então aquelas marquinhas que eu tanto gostava na barriga dela não eram de infância? Então meu pai, meu maior ídolo, tentou me... Não consigo mais. Fecho os olhos. Sinto a cama sob meu corpo. Devem ser só alucinações, quando abrir os olhos verei a sala alva do hospital novamente. Faltam forças. Tudo está mas pesado... Tenho impressão que abri os olhos, mas só vejo vultos. Ouço batidas fracas, seria o coração? Paro de sentir a cama. Não consigo mais mover os pés. Onde está o ar? Vácuo? Onde está a matéria? Consciência? Por fim, silêncio absoluto.".

quarta-feira, 26 de abril de 2017

In verso

O vento que enverga as velhas árvores litorâneas virou
O coqueiro encucado não mais sabe se dá coco ou caqui
As dunas de areia são desafiadoras ondas dragantes
E no amargo mar sem maré o amor não nevega mais

O verso virou ao inverso
E no poema a rima morreu
Irá o revolto vento voltar
Pra verter um veio de vida em minh'alma?