quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Bloco de notas



Se você olhar ali, bem no final da rua, com o pé esquerdo escorado na árvore e o fone nos ouvidos encontrará Henrique. 
Nesse momento, Henrique é um garoto de vinte e poucos anos como outro qualquer, exceto pelo fato de ser um pouco tímido e de sempre carregar consigo o que ele chama de bloco de notas, o que lhe rendeu o apelido de Doug. 
Não era raro ver Doug rabiscando alguma coisa no seu inseparável companheiro de viagem. Às vezes um desenho, às vezes um verso, às vezes uma simples frase, mas fato é que ninguém sabia ao certo o que realmente constava naquele tesouro pessoal. 
Certo dia, durante um acampamento que decidirá fazer com alguns amigos, Henrique levantou durante a noite para ver e registrar as maravilhas naturais noturnas. Seguiu uma trilha e logo à frente entrou em um trecho de mata não tão fechada. 
Para sua surpresa, deparou-se com um casal de desconhecidos transando à luz tênue da lua, sobre uma pedra lisa e rodeados de árvores frondosas. Por lembrar do consagrado "Sonho de uma noite de verão" ou pelo simples fato de achar a cena uma perfeita conexão entre o homem e a natureza, Henrique começou a registrar aquela imagem em seu bloco. 
Tudo estava indo bem, até que Henrique, ao tentar dar um passo pra conseguir um ângulo cuja iluminação estivesse mais apropriada, escorregou na serrapilheira chamando a atenção do casal. Eles pararam logo. O homem se vestiu às pressas, da melhor maneira possível, e foi tirar satisfações com o que ele imaginava ser um maníaco ou tarado. 
Vendo o bloco e o lápis nas mãos de Doug e evidenciando que sua massa muscular era bem maior que a do nosso herói, o homem nem deu tempo para que ele se explicasse, e foi logo aplicando-lhe uma bela surra. Entretanto, o que doeu mais para Doug foi quando o homem pegou seu bloco de notas no chão dilacerando-o em pequenos pedaços. 
Doug então chorou, e, indiferente aos sopapos que ainda estava recebendo e ao sangue que corria do seu lábio inferior e supercílio esquerdo, ele começou a recolher os pequenos pedaços de papel espalhados na folhagem e colocar nos bolsos, na esperança de recuperar seu tesouro. 
Irritado com o fato de Henrique não se importar com a surra que estava aplicando, o homem aumentou a força dos golpes. Henrique tentava concentrar sua atenção nos pequenos pontos brancos espalhados naquele mar de folhas secas. Porém, em um determinado momento, a paisagem começou a rodar. Tons de vermelho, azul escuro e negro apareceram em sua visão, ofuscando os pedacinhos de papel. Pouco depois ele caia desfalecido naquele cenário outrora perfeito... 
A próxima lembrança de Doug se remete a dois dias após esse incidente, quando ele acordou numa cama de hospital um tanto dolorido e com sua aflita mãe à cabeceira. Ele esperou que sua mãe terminasse as carícias e logo perguntou sobre seu bloco de notas, ao que ela respondeu que não fora encontrado e que as folhas de árvore e pedaços de papel encontrados no seu bolso haviam sido descartados. Após tal notícia uma expressão melancólica e desacreditada tomou conta de Henrique, e ele não mais pronunciou nenhuma palavra até o dia seguinte. 
Sabendo que ele havia acordado, os amigos que o acompanharam no acampamento e o levaram ao hospital foram visitá-lo. Eles tentaram conversar e interagir com Henrique, que parecia alheio a tudo e não esboçava nenhuma reação. Preocupados, os amigos acharam melhor se retirar para que ele descansasse e se recuperasse melhor, mas não sem antes deixar na mesinha ao lado uma folha que, segundo eles, estava na mão de Henrique quando foi encontrado inconsciente na mata. 
Quando sua mãe voltou, observou aquela folha na mesa sem entender muito bem o que significava e soltou um comentário meio pra si mesma: "parece uma folha do bloco do Rique". Aquilo pareceu despertar algo em Henrique que, ainda apático, esboçou a primeira reação desde então, estendendo o braço como num pedido para ver do que se tratava. 
Ao ver aquele pedaço de papel, um olhar de surpresa tomou conta do garoto, e em questão de instantes ele começou a chorar como uma criança que encontrara seu tesouro perdido. Ele não lembrava de ter feito aquilo, mas naquela folha, certamente pertencente ao seu bloco destroçado, repousara um resumo de tudo o que ele já havia feito. Desenhos em miniaturas, quadrinhos, frases de seus poemas e muitas de suas ideias se espremiam para caber na frente e no verso daquele pequeno papel. 
Ninguém poderia ter feito aquilo além dele... O que será que teria acontecido naquele meio tempo? Teria acordado e feito tal miscelânea? Ou seria fruto de alguma força sobrenatural inexplicável? Para Henrique não importava, bastava a sensação de retorno a vida que havia sido traga. Embriagado num choro de alegria, ele se atentou para a única parte que nunca havia desenhado: um rosto sorridente bem no estilo de seus traços com um balão de quadrinhos escrito: agora viva! 
Henrique se recuperou rapidamente após esse acontecimento, e em pouco tempo estava de volta a sua vida normal, apenas com uma discreta cicatriz no supercílio esquerdo. Disse a todos que havia sido atacado por um homem drogado e encapuzado naquele dia e que a folha pertencia ao seu desaparecido bloco de notas. Desde tal acontecimento, Henrique parou de usar o bloco de notas, se tornando uma pessoa mais sociável e mais segura de si, entretanto, ele guardou em uma de suas gavetas aquela relíquia e constantemente a admirava. 
Cerca de um ano se passou. 
Um dia, logo após admirar aquela folha misteriosa, Henrique caiu no sono, sonhando com o dia em que fora atacado. Ele estava na mata, observando a mesma cena com o bloco nas mãos. O bloco estava vazio, mas a perfeição daquele retrato o obrigava a desenhar. Era só ele não se mover! O desenho ia ficando pronto enquanto o casal continuava seu prazeroso ato. No último traço a felicidade de Henrique fora ameaçada, pois o casal olhou diretamente em sua direção. Henrique pensou em correr, mas suas pernas não o obedeciam. O medo tomava conta de si enquanto o casal se vestia calmamente o observando. Eles se aproximaram juntos, e o homem estendeu a mão como que pedindo o bloco. Henrique não queria, mas entregou. O casal observou o desenho por um tempo, até que uma lágrima escorreu dos olhos da mulher e um sorriso tomou conta do rosto do homem, que devolveu o bloco para Henrique com os seguintes dizeres: "Agora te entendo. Você me perdoa?". Atônito, Henrique disse que perdoava, e o homem lhe deu um abraço. Logo depois iniciou-se uma chuva de dinheiro e um disparo se ouviu. Instantes depois o homem caia numa serrapilheira de cédulas com uma marca de tiro no meio da testa... 
Henrique acordou suado e assustado. Que pesadelo horrível fora aquele! O garoto se levantou para lavar o rosto e beber água, e logo voltou a dormir. No outro dia, quando acordou e foi arrumar sua cama, observou que havia algo embaixo do travesseiro, como uma folha de papel. Impossível descrever a reação de Henrique quando viu que aquele papel era de seu bloco de notas e continha o desenho perfeito, como ele fizera em sonho algumas horas antes... E como se não bastasse, no verso havia um rosto desenhado juntamente com os seguintes dizeres "Obrigado, nos veremos em breve!". O rosto parecia familiar, e bastou Henrique pegar o papel da outra ocasião para perceber que era o mesmo rosto, aquele que ele jamais houvera desenhado. 
Não fazia o mínimo sentido! Absolutamente nada que ele pensava fazia sentido! Alguma coisa muito estranha estava acontecendo e ele, definitivamente, não estava muito curioso para saber o que era, só esperava que parasse por ali, pois já estava começando a assustar-se. 
Era melhor esquecer aquilo tudo e continuar vivendo normalmente. Henrique guardou agora as duas folhas em sua gaveta e foi tomar o café da manhã. Lendo o jornal que acabara de ser entregado, uma matéria o chamou bastante atenção: "Assalto a banco acaba em morte". Mais impressionante que o título, foi a foto 3x4 do homem que havia sido morto com um tiro na cabeça. Sim, o mesmo que o agredira e que ele havia acabado de sonhar. Henrique engasgou e quase sufocou-se quando deparou com a notícia. Não fosse sua mãe, talvez essa história terminaria aqui. 
Confuso e desorientado, Henrique decidiu espairecer um pouco. E porque não no mesmo local onde tudo ocorrera? Lá era tão bonito! Andou um pouco e decidiu visitar o local exato dos acontecimentos. Um local belo, mas não tão charmoso quanto era durante a noite. Revirou a serrapilheira e achou um ou dois pedaços de papel borrados, sem muita importância. Optou subir na pedra lisa e relaxar. Concentrou todas suas energias em um único pensamento: "Não quero mais me envolver!". Aos poucos relaxou e adormeceu na pedra. Algumas horas depois acordou bem mais disposto e menos assustado e voltou a sua vida. 
O tempo passou. Henrique acabou se tornando um arquiteto bem sucedido, se casou com Karine, sua bela ruiva, e teve um casal de filhos. Tranquilidade, garra e determinação eram algumas de suas características marcantes e todos o viam como um verdadeiro homem de fibra! 
Certo dia sua filha, já no auge de sua juventude e um tanto independente, anunciou que estava namorando um garoto chamado Yan, e convidou os pais para um almoço na casa de seu amado. 
Quando chegaram na casa, Henrique e Karine ficaram esperando na sala de estar até a mesa ser posta e os pombinhos, que estavam presos no trânsito, chegarem. Sem um anfitrião, Karine começou a observar as fotos espalhadas pela casa. Henrique fez o mesmo. Primeiramente viu a foto de uma mulher e uma criança, provavelmente a mãe o atual namorado de sua filha. Mais algumas fotos da mulher e algumas fotos do menino um pouco maior. Algo parecia familiar... Então, Henrique ficou estupefato quando viu uma foto antiga do casal e reconheceu o homem que havia o agredido. E claro, aquela mulher era a mesma que estava com ele aquele dia, como poderia esquecer? 
Ainda atônito com o que acabara de ver, um barulho na porta anunciou que o casal chegara. Henrique ficou boquiaberto. Aquele rosto que ele nunca desenhara estava ali na sua frente, do lado de sua filha. Vivo, humano! Seria possível? 
Durante o jantar, onde também estava presente a mãe de Yan, Henrique foi levantando evidências de que aquele garoto era realmente filho de seu agressor do passado e, pela idade do menino, era bem capaz que a gravidez tivesse acontecido naquela época. E era tão similar àquele desenho misterioso... Difícil de acreditar! 
Talvez a reação natural de Henrique seria odiar aquele garoto, ser contra o relacionamento ou qualquer coisa o tipo, mas não era isso que ele sentia. Ele tinha um apreço e um carinho grande por aquele ser que só conhecera por desenhos, como se fizesse parte de sua história. 
O jantar foi super agradável, e todos aqueles receios que os pais costumam ter a respeito dos relacionamentos dos filhos se dissiparam instantaneamente. Henrique nada comentou sobre suas impressões. Ninguém jamais saberia o que se passara com ele, era uma estória estritamente pessoal e fantástica demais para que qualquer um acreditasse. Mas para a sua surpresa (talvez a terceira grande surpresa que tivera na vida), durante as despedidas, Yan levou Henrique para um canto e disse as seguintes palavras: 
- Demorou, mas finalmente nos encontramos. Obrigado por ter me dado a vida, garanto que não irei decepcioná-lo! 
Henrique nada respondeu. Apenas deu um sorriso esperando a hora que abriria os olhos, acordando do que agora tinha certeza ser um sonho fantástico. Piscou vagarosamente para facilitar seu despertar. Porém, ao abrir os olhos novamente, estava ali, naquela mesma cena.
Henrique então, ainda calado, abraçou seu futuro genro com bastante afeto. Ao final das despedidas, ele a mulher e a filha partiram. 
Enquanto sua mulher dirigia, Henrique olhava para a Lua e sorria como um menino. Um daqueles sorrisos que parecem vir da alma, como dizem os menos céticos.
Naquele dia, Henrique (sim, nosso Doug) deitou em sua cama não em busca de explicações para tudo aquilo, mas com uma incrível sensação de desejo realizado. 
Até hoje, alguns podem perguntar porque Henrique carregara por tanto tempo aquele bloco de notas. E a verdade, é que ali ele realizava um sonho, temperando a monótona e lógica realidade com intensas pitadas de fantasia esperado o momento que ambas pudessem entrar juntas no palco para encenar a peça da vida, e, definitivamente, aquele momento havia chegado!

domingo, 11 de dezembro de 2011

Vida Breve

A presa se encontra encurralada. Os batimentos cardíacos estão acelerados. Ela ainda olha ao redor em busca de alguma possibilidade mínima de fuga, mas garras ferozes selam seu fim.

Choque hipovolêmico? Traumatismo craniano? Parada cardiorrespiratória? Arthur tentava desvendar a causa mortis do rato que acabara de vir a óbito pelas mãos do seu amado bichinho de estimação. Por mais que ele pensasse, e mesmo que descobrisse, ninguém além dele iria remover aquele cadáver antes que sua mãe chegasse. E ainda tinha o gato, que ficara todo ensanguentado depois de acabar com seu brinquedo vivo.

O rato num saco plástico e o gato numa gaiola que já estava ficando pequena. Enquanto Arthur levava o pequeno Kali ao pet shop para um banho caprichado, surgiram alguns pensamentos à respeito da brevidade da vida.

Gato entregue, Arthur decidiu passar no cemitério para visitar o túmulo do seu querido e honroso avô.


Adolfo Luís Pereira Filho

1922 - 2007


Toda uma história de vida se resumira ali. Nome, ano de nascimento e ano de falecimento.

Arthur ainda se lembrara do dia que seu avô engasgou enquanto se alimentava e foi ficando vermelho, roxo, até desfalecer em seus braços. Tão saudável! Tão disposto! Como pôde isso acontecer?

Algumas lágrimas não puderam ser contidas. Ele amava tanto o vô Dôfo, como carinhosamente chamava. Rodas de viola, dominó, as fantásticas histórias... Tudo aquilo de repente desaparecera num instante, para nunca mais voltar. Tão rápido, tão doloroso, tão breve...

Mesmo após quatro anos passados, Arthur não havia acostumado com ideia de seu avô morto. Ele ainda vivia! E a maior prova disso era o jardim de sua casa que vô Dôfo fizera questão de montar. A brisa leve, o sabor doce da pitanga e o perfume dos jasmins eram pra Arthur um presente constante daquele homem que outrora tanto admirava. Olhos fechados para lembrar daquele embrião de jardim, onde ele e vô Dôfo se divertiam plantando diversas mudinhas. Mudinhas que hoje cresceram e são uma eterna homenagem à memória daquele homem. Mais que um nome e duas datas cravadas numa placa!

Já? Ao olhar para o relógio Arthur se impressionou com o tempo que havia demorado. Estava tarde! Ele tinha que buscar Kali e depois passar na casa de sua noiva, uma típica virginiana que odiava atrasos. Nessas horas que se descobre o real significado da palavra pressa! Arthur pisou no acelerador com gosto, que foi um dos seus piores erros... De repente um sinal fechado, mas a velocidade está muito alta. Ouve-se ruídos de freadas de ambos lados do cruzamento. O tempo parece se desdobrar e poucos instantes viram uma eternidade. Arthur vê um filme de sua vida, relembra de vô Dôfo e só consegue pensar em uma palavra: BREVE! Um barulho se escuta...

O trânsito para. Ambulantes correm para o local atraídos pela curiosidade. Por um milagre não houve a batida que poderia ser fatal, mas Arthur estava desfalecido pelo susto e o impacto de seu sonoro airbag. Logo ele acorda e encosta o carro para um local seguro, após se desvenciliar do trambolho de ar que ajudou a salvar sua vida.

A polícia é chamada para fazer uma ocorrência e Arthur acaba ganhando uma multa e alguns pontos na carteira por conta de sua imprudência. Saldo bastante positivo pelo risco que havia corrido. Liberado, Arthur liga pra sua mãe, pedindo-a pra buscar Kali no pet shop e se dirige direto para a casa da noiva, já que precisa de um consolo.

Durante o caminho, ainda um pouco em choque e há uma velocidade bem moderada, Arthur fica imaginando como a morte está à espreita. Poderia ter acabado tudo ali! Será que valia a pena viver essa vida tão breve e sujeita ao inesperado?

Triste, Arthur estacionou na porta da casa de sua noiva e, ao tocar o interfone, foi atentido pela doce voz de sua amada pedindo que ele subisse. Ao chegar em seu quarto, ela estava em pé, com uma camisola rosa, olhos marejados, um sorriso amável e as mãos acariciando o ventre. Arthur logo entendeu o recado e, pela segunda vez no dia, não conseguiu conter as lágrimas. Partiu para um abraço efusivo com sua alma gêmea enquanto orgulhava-se e entendia de uma vez por todas aquela fatídica VIDA BREVE.


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Esqueça


Esqueça as lacunas remotas do passado,
Esqueça o vento, a brisa, o relento.
Esqueça o mármore que refletia tua face
tingindo disforme teu pranto cruento.

Esqueça a miséria ardente do amor,
Esqueça a lamúria do canto arrependido.
Esqueça as garras cruéis e ardentes
que feriam a alma em eterno alarido.

Abandone as lembranças.

Guarde recordações em jazigos.
Monotonia em serenata
acordada a versos vazios.

Vociferar? Esbravejar? Colerizar?

Renunciar!
Destravar a velha caixa
que outrora Pandora tratou de abrir.

Libertar!
Liquidar!
Estancar!
Esquecer...

Esqueça a linguagem rebuscada dos poemas,

Esqueça a métrica inútil das palavras.
Esqueça o intenso esforço do poeta
de ocultar a ferida há muito escancarada.

Esqueça o passado sádico,
Esqueça o sofrimento dolorido.
Sopre as nuvens da intensa tempestade
que deixou em ruínas os campos floridos.

Esqueça

squeça
queça
ueça
eça
ça
a
.

E tudo acaba no ponto final.
E tudo acaba no ponto esperança.




sábado, 19 de março de 2011

segunda-feira, 14 de março de 2011

Como se fosse ontem


Era noite.

Uma noite fria, escura e vazia, onde nada parecia se mover. A sombra era a rainha daquele cenário, e o silêncio, o rei. Dominavam com maestria o reino das trevas.

Pode parecer muito clichê, leitor, dizer que nesse cenário havia alguém triste, solitário, achando que nada mais fazia sentido na vida. Também pode ser entediante ler sobre esse assunto mais uma vez, a ponto de você questionar a criatividade de quem vos fala. Porém, mesmo com tudo isso, tenho que assumir que sim, tinha alguém nessas condições nesse dia.

Não sei se é o dia, dito melancólico, que transforma as emoções dessas pessoas ou se são elas próprias que, uma vez se sentindo péssimas, veem o mundo com olhos depreciativos, mas o fato é que essa combinação é mais frequente do que se possa imaginar.

Independente de qualquer hipótese e alheio a todas elas, lá estava nosso personagem, que pediu pra não ser identificado por motivos pessoais, que também não vêm ao caso.

Estava deitado em sua fiel companheira, a cama, que já se encontrava, assim como a face do jovem, úmida com a quantidade de lágrimas derramadas. Ok, sei que não há originalidade nenhuma nessas duas últimas linhas escritas já que as últimas pesquisas mostraram que 452 pessoas ficam nesse estado lamurioso por noite e provavelmente, leitor, você já deve ter passado por isso uma vez na vida (ou mais). Sendo assim, você sabe que dois pensamentos são bem frequentes nessa ocasião. Um é a morte, o outro é a vontade de "jogar tudo pro ar".

Nosso pequeno herói considerou as duas possibilidades, mas optou pela segunda. Tomou uma espécie de banho, vestiu alguns trajes negros e decidiu sair de casa naquela noite. Sem rumo, sem objetivos e com um teor alcóolico considerável no sangue, justificado pela garrafa que carregava consigo.

Passou em frente a alguns lugares, se interessou pelas batidas fortes de uma casa de show, decidindo entrar. O álcool e a música pesada o fizeram descarregar parte daquela energia negativa, sob olhares no mínimo curiosos dos presentes. Aquilo era bom! Aquilo o fazia sentir melhor! Mas aquilo era passageiro...

No fim da noite ele saiu pior do que havia entrado. Andou um pouco, sentou num banco de praça e perdeu a noção do tempo...

Quando deu por si, já havia amanhecido e uma guria parecia chamá-lo insistentemente por algum tempo. Não era uma andarilha, não era uma vendedora, era só uma pessoa comum que se preocupou com seu estado deprimente.

Bem, leitor, vou te importunar mais uma vez interrompendo a história com um parêntese. Se você é um dos que já passou por situação similar, sabe que quando alguém demonstra se importar consigo você se sente, de algum forma, bem!

E nosso herói não foi exceção. Alguma coisa mexeu com seu estado de espírito, e ele viu uma luz naquela guria. Ficaram ali boas horas conversando. Até hoje ele não sabe precisar se foram quatro ou mais, mas só o fato da garota matar a aula de inglês pra ficar ali, fazendo companhia, já foi uma verdadeira pepita de ouro.

Ele ficaria ali boas horas, quando ela interrompeu dizendo que estava faminta. Só aí ele se tocou de quanto tempo não comia e de como estava precisando de uma bela refeição. Como gratidão, ele a convidou para um lanche, onde eles continuaram conversando por um bom tempo.

Quando eles se foram, não foram sozinhos. Um sentimento novo e bonito parecia estar nascendo no peito dos dois, e nosso herói apostou todas suas fichas nesse sentimento.

O tempo foi se passando e os dois foram se tornando cada vez mais próximos. Não consigo narrar metade dos sentimentos daquela garota quando, com um par de aliança de compromisso, ele a pediu em namoro. Uma cena linda! Uma felicidade compartilhada por duas pessoas que cada vez mais se tornavam uma.

Cartas, promessas, presentes, gestos, toques, beijos, amor! Amor! Era aquilo que sentiam um pelo outro. Era puro, era simples, era intenso, era mágico, era real! E real foi a sintonia dos dois na primeira noite. Era como se o paraíso tivesse descido à Terra! Seria tão bom se aquele momento fosse eterno...

Os meses se passavam e, cada vez mais, aquele sentimento ia tomando conta! Não conseguiam mais ficar longe um do outro por mais de dois dias. Quando não estavam frente a frente, o celular e o computador faziam a ponte necessária entre as duas almas! Era perfeito! Ou elhor, era quase perfeito...

Ela tinha um ciúme patológico, que o incomodava. Ele tinha uma carência enorme que ela, muitas vezes, não conseguia suprir. Por isso, algumas brigas e discussões vieram, como em qualquer relacionamento. Mas o amor era maior, e tudo aquilo era superado.

Com o tempo as discussões ficaram mais frequentes, o relacionamento foi ficando tenso e um tanto monótono... Ela parecia um pouco distante. Ele precisava fazer alguma coisa, e já tinha seu plano na manga.

Havia comprado as alianças de ouro e a pediria em noivado! Tudo ficaria bem de novo! Aquela prova de amor acabaria com qualquer remorso!

Um dia então ele marcou. Naquela mesma praça que haviam se conhecido, num fim de tarde, a sombra da majestosa palmeira imperial! Tudo estava perfeito, e ele tomou coragem para anunciar sua decisão (Os homens que já fizeram isso ou pensaram em fazer sabem perfeitamente o que significa tal momento)! Quando abriu a boca pra começar o discurso que havia preparado e ensaiado, ela o interrompeu com a justificativa de que tinha algo importante a dizer.

Ele estremeceu!

"Conheci outra pessoa, estou amando. Acho que não dá mais pra nós... Me desculpe..."

Dito isso, ela lhe deu um beijo no rosto, levantou-se, e o deixou atônito no banco da praça, com as alinças no bolso e o coração sabe-se lá onde...

Ele estava em choque. Não soube o que dizer. Não sabia como agir. Tudo havia acabado em frações de segundo.

O movimento na praça foi caindo, a noite foi chegando. Escura, fria e sombria. Sentimentos de outrora foram tomando conta do nosso herói. Era como se tivesse voltado ao passado. Era como se nada nunca tivesse acontecido.

O dia era igual, o lugar era o mesmo, os sentimentos eram tão ou mais pesados que os de antes, as opções não haviam mudado: morrer ou jogar tudo pro ar.

Ele, definitivamente, não queria cometer o mesmo erro de outros carnavais...


quarta-feira, 9 de março de 2011

Detalhe



E de repente fez-se o NADA.

Fez-se tão rapidamente que não gastou-se sete dias e sete noites, bastou uma noite para que o mundo se dissolvesse na mais pura essência do Nada.

Tudo estava ali, mas nehuma das coisas, seja viva ou morta, conseguia tocar na alma daquele ser desesperado cujos sentimentos haviam sido desprezados momentos antes.

A vida o havia deixado, escorrido por todos orifícios, mas esquecera de desligar o corpo que teimava em continuar funcionado, seja com batimentos cardíacos ritmicos ou com pensamentos que vez ou outra rondavam aquela cabeça.

Mas ele não estava ali. Talvez estivesse no passado, onde havia sabor em estar vivo ou talvez estivesse além. Além de onde possamos imaginar, num Universo que não pertencia a mais ninguém. Porque aqui, tudo pra ele era Nada!

Alguns diziam que ele havia se torndo um zumbi, mas zumbis só vivem pra se alimentar, e ele não comia há uma semana.

Alguns diziam que ele estava depressivo, mas depressivos choram, e ele não havia derramado ainda uma lágrima sequer.

Alguns diziam que ele estava morto, e desse argumento só a fisiologia duvidava, mas o tempo tratava de convencê-la que aquilo estava certo...

Quando a morte do corpo parecia certa, todos se surpreenderam. De repente, do Nada, veio uma ideia fixa àquele ser: escalar uma montanha!

Ele se levantou, resgatou suas economias, voltou a se alimentar, pesquisou e decidiu seu destino. Um dia, com um largo sorriso no rosto, saiu para sua escalada.

Todos ficaram contentes, acreditando que ele havia melhorado. Poucos foram os sábios que deduziram que ele só estava procurando um caminho pra se encontrar de vez com o Nada...

A escalada não fora difícil. Ele estava com um pensamento fixo e todas suas forças voltaram-se para a realização desse objetivo.

Ao chegar ao topo, ele se sentou e fez um mergulho no passado. Dessa vez algumas lágrimas caíram. Ao lembrar dos pais, falecidos recentemente num acidente aéreo, ao lembrar da infância pura e sem preocupações e ao lembrar do amor de sua vida, que o havia deixado covardemente sob xingamentos.

O filme passou por completo. Era a história da vida no palco da morte. Era tudo que ele havia passado até chegar naquele momento de Nada. Eram os paradoxos que se faziam presente na vida daquele ser. Vida? Bem, talvez essa fosse mais um paradoxo.

Decidido, ele se levantou para cumprir o que acreditava ser sua última missão na Terra. Direcionou-se para beira do precipício, fechou os olhos, respirou fundo e, quando abriu os olhos pra saltar, um movimento à sua esquerda lhe chamou atenção.

Uma borboleta tentava sair do casulo, mas por algum motivo não conseguia. Dos confins de sua mente veio a velha máxima de Lavoisier: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Aquela outrora lagarta estava se transformando em uma borboleta, mas precisava da energia vital que ainda pulsava nele pra se libertar. E com essa dedução e um sorriso no rosto ciente de que estava fazendo a coisa certa, ele pulou...

...

Ele pulou. Tinha certeza que havia pulado! Mas, estranhamente, ainda estava ali! Como era possível?

Olhou pro lado novamente e viu a borboleta, que, finalmente, conseguia se libertar. Como ela conseguira sem o seu sacrifício?

E no primeiro voo, a borboleta parece ter respondido aquelas perguntas. Foi um voo curto, em volta da cabeça do rapaz, com um suave pouso em seu ombro.

Até hoje não sei o que foi dito, mas, seja o que for, mudou a vida daquele garoto. Tudo parece ter ficado colorido novamente. Tudo parece ter voltado a ter sentido. Tudo parece ter ganhado novo fôlego.

A borboleta foi embora e o garoto voltou.

E do Nada fez-se o TUDO!

domingo, 6 de março de 2011

Pra que me conter?

Pra que me conter?
Pra engolir os espinhos de decepção e rasgar minha alma com lamentações e desespero?

Pra que me conter?
Pra manter as aparências enquanto me rói por dentro um ódio mortal?

Por que não dilacerar meus pulsos com uma lâmina de gilete se já dilaceraram meu coração com armas muito mais cruéis e dolorosas?

"Não, você tem que ser mais forte, não pode deixar que essas coisas te afetem!"

Como? Não posso deixar que minha dor transpareça? Tenho que parecer perfeito aos olhos da sociedade? Por quê? Me dê um único motivo!

Devo negar minha essência só porque ela aparenta ser ruim e me mostrar como um bonequinho perfeito? Mas ninguém é perfeito, por que eu devo querer que achem isso de mim?

Qual o problema de eu ter quebrado pratos e rasgado livros em um acesso de raiva? Deveria ir ao manicômio? Mas não seria o manicômio também o lugar de hipócritas que negam a si próprios só pra se adequar ao "certo" que lhes foi apresentado?

Me perguntaram o porque de tanta revolta. Será que não é claro? EU SIMPLESMENTE QUERO SER EU!

Por inteiro! Sem críticas, sem repreensões, sem poréns...

"Se contenha!" MAS POR QUE EU DEVO ME CONTER? Pra acumular raiva e sair matando dezenas de pessoas por aí num relapso impensado de justiça?

Se foi me dado o direito de vociferar, de sentir ímpetos de raiva, de me desesperar por uma perda, de chorar por uma decepção, por que devo abdicar disso tudo?

Não, não vou me conter! E também não queira que eu me contenha... Vou sentir tudo o que meu corpo permitir, vou aproveitar todas as sensações que a Vida tem a me oferecer, mesmo aquelas que lhes pareçam ruins, porque muito acima do seu julgamento ao meu respeito estou EU e, com certeza, não vou me abandonar por qualquer coisa...