sábado, 5 de fevereiro de 2011



O tic tac do relógio me hipnotiza e mergulho no mar de azulejos azuis daquela parede antiga. Um mundo novo surge diante dos meus olhos. Olhos? Não, as pessoas não os tem. São só duas aberturas brancas que assustam, mas nos convidam pra entrar. Não reprimo o meu desejo. Ultrapasso a brancura ocular de um ser e me vejo viajando no seu interior. Caio num grande salão de uma gruta, que dá passagem a uma sala luxuosa. Dentro dessa sala existem pessoas. Pessoas normais, com olhos. As pessoas não me veem, mas elas brigam entre si. Espere! Aquela pessoa não é a mesma cuja os olhos estavam brancos agora? Sim! Ela se vira e me olha com pânico. Nas suas costas é apontada uma arma de fogo que dispara. Aos poucos a vida contida naquele corpo se esvai enquanto o olhar daquela criatura agonizante permanece em mim. Morte. Me viro e vejo uma luz branca convidando pra sair. Dou um passo e sinto algo segurando minha mão. É a criatura, mas já sem olhos. E eu já estou onde estava antes. Antes de aceitar mais um convite ocular decido a observar o lugar. As pessoas permanecem paradas em seus lugares. Quando se movimentam, isso se dá muito rapidamente, e elas parecem flutuar. Me assusto, mas antes que o medo me paralise, me pego mergulhando em outro olhar sem olhos. Novamente uma gruta, mas dessa vez ela dá para um campo de pampas com um imponente jacarandá. A paisagem é bela, mas a cena que está prestes a acontecer não. No alto do jacarandá, o dono dos olhos perdidos (agora com eles) tem uma corda ao redor do pescoço e acaba de dar o último nó no tronco da árvore. Tento impedir o enforcamento iminente, mas minha voz não sai, minhas pernas não se mexem... É nesse momento que aquele ser me mira, e assim o faz desde seu salto até a hora que que o ar se vê impedido de entrar naqueles pulmões. Pulmões mortos. Seus olhos desaparecem e ao mirá-los me vejo novamente no salão dos "desolhados". Começo a correr procurando uma fuga, mas os convites são constantes. Uma mulher atropelada. Um homem decapitado. Uma senhora envenenada. Uma criança abortada. NÃO! Fecho meus olhos e tudo vira escuridão. Quando os abro novamente só há uma pessoa com o globo ocular alvo, e essa pessoa sou eu! Atordoado aceito aquele último convite. Da gruta passo a um familiar cômodo todo azulejado de azul. Lá estou eu (ou um clone de mim) sentado a mesa, com os olhos ainda perfeitos. De repente, como num deja vú, o clone começa a olhar na direção dos azulejos, mas entre os azulejos e o olhar estou eu. É como se eu olhasse nos meus olhos mas não me visse. E como todos os outros olhares, esse também era penetrante, quase uma súplica. Um estrondo se ouve, levando o cômodo com seus belos azulejos azuis abaixo. Meu "clone", é atingido por um grande bloco de pedra que outrora compunha o teto, e ele mantém seu olhar fixo em mim até seu último suspiro. ÚLTIMO SUSPIRO? Novamente estou no salão, mas agora não há ninguém, só eu e um grande espelho. Por incrível que pareça, não tenho mais olhos... Entendo o que está acontecendo e tento chorar. Incrivelmente as lágrimas vem, mas elas são negras, e começam a manchar minha roupa e turvar minha visão. Tudo vira treva!



Escuto o tic tac do relógio, abro meus olhos e me deparo com os azulejos azuis. Primeiramente me assusto, mas depois percebo que dormi escorado na minha mão e tive um sonho esquisito. A rotina cansativa está me fazendo adormecer em qualquer lugar! Me levanto e decido tomar um banho para me manter acordado. Já no box me dispo, e é nesse momento que um vento gélido percorre minha espinha causando um arrepio na alma: Minha camisa está toda manchada de negro...


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Farrapos!


Acabei de receber uma ligação. A notícia não é boa, mais uma briga se aproxima. E é daquelas típicas, tipo chuva de verão, que forma rápido e despenca de uma vez e com toda a força. A única diferença é que a chuva passa rápido, a briga deve render por um bom tempo. Sem vontade de ir pra casa, saio do trabalho e rumo em direção a uma praça com o objetivo de me preparar para o que está por vir. Sento num banco e, não muito tempo depois, senta-se uma senhora ao meu lado. Ela começa a falar, falar, falar... Pelo pouco que escutei ela contava histórias da sua vida. Não tava com paciência pra esse tipo de coisa e fui respondendo monossilabicamente até ela se despedir uns 20 minutos mais tarde. Observo o montante de carros, motos e ônibus ao redor da praça e já me estresso com o trânsito antes mesmo de entrar no carro. Não bastasse isso, o flanelinha ainda me arranca 5 reais por ter "olhado" o carro (na verdade só dei porque o arame na mão dele anunciava o prejuízo que eu teria se não pagasse pelo "serviço"). Tento uma rota alternativa e acabo me perdendo na cidade. Na falta de um ambulante na rua, estaciono meu carro próximo a uma padaria. Bom que já compro pão para o dia seguinte. Quando entro na padaria percebo o assalto, e quando tento sair de fininho sinto o cano de uma arma nas costas mandando eu ficar quieto e passar tudo. Ótimo, lá se foram o dinehiro, o celular, os cartões.... Mas ficou pior quando, acabada a limpa na padaria, eles decidiram roubar o carro de um dos clientes pra fugir. Qual? Bingo! Perdido, sem dinheiro e sem carro. Ótima hora para o seguro estar atrasado... Imploro dinheiro para passagem de ônibus aos poucos clientes que se safaram do assalto e consigo alguns trocados acompanhados de informações de como voltar pra casa. Atrasado e faminto, escuto os trovões ribombarem em casa antes mesmo de girar o trinco da fechadura. A mulher já está uma fera e nem espera justificativa. Depois de 40 minutos escutando seus gritos eu enfim posso dizer o que e passou. Após ser ouvido um sopro de piedade toca nela e eu ganho autorização pra jantar. Me sirvo e logo na primeira garfada, mais gritos, dessa vez desesperados. Minha mulher diz aos prantos que o Júnior está tendo uma convulsão. Às pressas pego o fusca dela e temos que correr com o menino para um pronto socorro. Já é meia noite quando chegamos e somos atendidos. O médico diz que pode ser grave e as horas vão se passando enquanto a tensão do momento não me deixa pregar os olhos. Quando o médico vem com o diagnóstico, as recomendações e decidi dar alta pro meu filhão já são 5 horas da manhã e, por fim, decidimos ir para a casa. Volto sonolento, e, como se a situação já não tivesse ruim, consigo bater na traseira de uma BMW nova. Mais um bom tempo até a polícia e o reboque chegarem e resolverem tudo (ainda não faço ideia de como eu vou pagar, mas...). Pelo menos os policias, condolentes com a situação, levaram minha mulher e filho para casa. Eu tive que pegar ônibus novamente. 8 horas da manhã, na hora de sair pro trabalho, chego em casa. Tomo banho, me arrumo e decido deitar por 5 minutinhos, mas o sono me pega de jeito, e quando acordo ainda são 8 horas, porém da noite...

Então foi por isso que não vim ontem, chefe, e se você puder pensar na possibilidade de um aumento eu não acharia ruim...
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Melancolia


E hoje choro! Choro porque transborda de dentro de mim, por uma rachadura que outrora não passava de um pequeno trinco, o sentimento que sempre esteve ao meu lado, até nos melhores momentos: a malfadada melancolia.

Por causa dela já me puni, já fui julgado, já fui condenado e já cumpri penas que nem a prisão mais asquerosa deste mundo é capaz de oferecer.
Mais uma vez estava preparando um punição, quando de repente, num impulso desses que não se sabe explicar de onde surge, recordei toda a nossa história. Acho que meu primeiro encontro com ela foi no ventre de minha mãe. Poderia poeticamente descrever esse encontro sendo eu um bebê nadando num mar de emoções maternas e naufragando numa pequena ilha de melancolia que se tornara meu reduto preferido! Mas hipócrita eu seria, e estaria faltando com a verdade, já que, como todas as outras pessoas em sã consciência, de nada me lembro da minha vida fetal (poderia também questionar minha sanidade, mas não quero ludibriar, me conterei apenas a narrar os fatos com a lógica de que fui agraciado).

Se não tenho provas de que a melancolia se fez presente na minha vida antes do mundo me receber, porque fiz tal suposição? Bem, nunca disse que não tinha provas, só disse que não tinha lembranças!

Se a poesia não convence, a ciência, mesmo quando não muito apurada, transforma qualquer besteira em fato verídico, pois vou me apoiar nela. Não que eu esteja prestes a contar uma inverdade, mas quero ter certeza que o leitor não tenha dúvidas ao deparar com tal fato. É de conhecimento geral que o consumo de certas substâncias, comumente chamadas de drogas (medicamentos, álcool, tabaco, entre tantas outras) podem afetar o desenvolvimento fetal levando ao aparecimento de lesões de diversas ordens. Da mesma forma, desequilíbrios emocionais também são capazes de causar sequelas nos bebês, mesmo que essas sejam apenas psicológicas. Aos mais céticos que veem isso apenas como uma metáfora posso indicar-lhes pelo menos meia dúzia de artigos científicos e teorias bem embasadas a esse respeito. Àqueles que já se convenceram, peço um pingo de confiança para acreditarem quando digo que durante a minha gestação minha mãe teve um dos momentos mais instáveis de sua vida, questionando inclusive se aquela gravidez deveria ser levada adiante.

Não quero que sintam pena ao lerem isso, não é minha intenção. Quero apenas que considerem a possibilidade de que meu encontro com a melancolia tenha sido tão precoce. E se os fatos narrados aqui apontam apenas para um possibilidade, ela se torna concreta, ao menos para mim, quando o adjetivo MELANCÓLICO é usado por um médico para caracterizar o primeiro choro de um bebê ao avistar o mundo (ou pelo menos as paredes brancas de um quarto de hospital). Sim, esse bebê é o mesmo que vos fala agora: eu!

Daqui poderia pular para minha primeira infância. Aquela em que a criança tem suas primeiras lembranças. Porém, o relato de terceiros ainda me é de grande interesse nessa narrativa. Tudo bem que eu vou contar com as minhas palavras as impressões que várias pessoas tiveram sobre mim que, por sua vez, chegaram aos meu ouvidos pela ótica dos meus pais. Dizem que quem conta um conto aumenta um ponto, e concordo que isso seja verdade e talvez se aplique aqui. Mas na impossibilidade de usar uma máquina do tempo que me daria a visão real dos fatos (e só não a uso pois ela ainda não foi inventada) e considerando que essa época é importante para o caminhar da narrativa, creio que essa seja a melhor ferramenta a ser utilizada!

O médico não foi o único a reparar um tom diferente no meu choro. Parentes e vizinhos diziam o mesmo: "O choro dele é diferente. Meio triste...". Preocupados meus pais me levaram a vários pediatras, mas todos descartaram a possibilidade de problemas respiratórios ou nas cordas vocais. Foi de minha avó, uma das pessoas mais sensíveis que conheço, que minha mãe escutou algo que, quando me foi contado, causou um grande impacto: "Esse menino não tem problema nenhum! Ele simplesmente sente as chagas do mundo como se fossem as suas...". Minha mãe conta que se arrepiou e xingou minha avó, mas depois de ter ciência disso, essa frase nunca saiu da minha cabeça. Claro que já perguntei pra minha avó a respeito disso. Ela me disse que não tinha como explicar, ela simplesmente compreendia o sentimento contido nos meus lamentos infantis. Ao fim ela me perguntou se havia errado no seu "diagnóstico" e eu tive que concordar que não havia erro, era exatamente aquilo.

Lá se foi um imenso parágrafo com impressões alheias, e ainda acho que muito ficou de fora, como o olhar distante e triste que algumas primas repararam, a "cara de ator de novela mexicana" que eu fazia depois de chorar, como bem viu minha madrinha ou o apelido "pequeno desiludido" dado pela babá que me olhava de vez em quando. Mas chega, passaremos às minhas lembranças, já que a essa altura do campeonato eu já estava mais crescidinho.

Uma das minhas maiores diversões na infância era desenhar! Nunca me considerei um bom desenhista (hoje em dia me considero péssimo ou um pouco pior) mas era apaixonado por aquilo. Dizem que arte e melancolia andam juntos, mas não é nisso que quero me apoiar agora. Gostava de desenhar. Mas o lápis e o papel, o giz e o quadro negro, o pedaço de tijolo e o chão acimentado não eram suficientes para satisfazer meu desejo. Só me sentia completamente realizado quando desenhava nas paredes! Arte! Era o que minha mãe dizia: "Para de fazer arte menino!", e logo me espantava com uma havaiana gasta na mão sem ter coragem de me dar uma palmada. Porque a parede? Bem, os papéis rasgavam e sumiam, o quadro negro era apagado, o chão era lavado pela chuva, mas o desenho na parede permanecia. Mesmo que minha mãe tentasse limpar, ele só ficava um pouco mais apagado, mas continuaria ali. E eu achava mais bonito ele meio apagado, borrado, escondido! Era como se uma parte dele tivesse ali e a outra parte tivesse dentro de mim!

De todos esses desenhos, um era especial. Ficava no meu quarto (sim, eu desenhava em todos os cômodos da casa) e representava a minha mãe. Talvez não passasse de rabiscos infantis, realmente não era mais que isso! Mas um belo dia (não tão belo assim, estava nublado e o dia estava escuro, o que para mim configurava um dia perfeito) meu pai decidiu reformar a casa e nos comunicou. Todos ficaram felizes, menos eu, pois sabia o que estava por vir. A reforma caminhou, até chegar ao meu quarto. O quarto fora esvaziado e o pedreiro já estava lá para lixar a parede. Eu não queria ver aquele momento, estava no quintal tentando me entreter com alguma brincadeira. Quando escutei o barulho da lixa trabalhando, algo queimou dentro de mim e eu subi correndo as escadas até o meu quarto e, ao chegar na porta, pedi licença ao pedreiro para que eu pudesse despedir do meu quarto: "Não fique triste garoto, ele ficará bem mais bonito!". Ele saiu, eu tranquei a porta e encarei aquele desenho. Não sei em quanto tempo as lágrimas verteram, talvez antes de eu chegar perto o suficiente. O olho embaçado pelas lágrimas fez com que aquela figura se movesse. Uma parte dela se movia do lado de fora, e outra do lado de dentro. Um misto de felicidade e tristeza. Um fogo queimava ela internamente, assim como a lixa a dilaceraria externamente. Um sentimento de perda incrível... Pode parecer pecado, mas era como se visse minha mãe pela última vez....

Em dois dias meu quarto estava pronto, e eu continuava melancólico. Meu pai me perguntava: "O que é filhão, não gostou da cor? A gente muda!". Eu fingia que estava tudo bem e eles acabaram fingindo que acreditavam e aos poucos fui convivendo com aquela situação até superá-la. Claro que não completamente, só de fazer esse relato uma ou duas lágrimas foram derramadas por conta desse evento.

Podia me extender contando sobre as músicas infantis que eu mais gostava: aquelas com melodia e/ou letra melancólica, sobre os meus heróis, já que todos tinham uma tristeza na vida, sobre a tragicidade colocada nas histórias que construia com os meus brinquedos e tantas outras peripécias infantis, mas não quero me alongar muito, creio que a história do desenho já resume bem minha infância deveras incomum.

Daí, parto para o que pode ser o verdadeiro terror pra qualquer criança que tenha tido, como eu, esse encontro precoce com a melancolia: a época escolar! Não que eu não tivesse aquela vivacidade infantil de todas as crianças, mas ela ficava coberta por brumas mais ou menos densas, dependendo da ocasião. As outras crianças viam só as brumas e me tratavam como o diferente, o que só fazia que a bruma se adensasse mais e me colocava mais perto do meu refúgio melancólico. Dizem que crianças são inocência, o que é uma verdadeira balela! Elas não são inocência, elas são essência, assim como eu era naquele momento, e pago o que quiserem se me provarem que a essência humana é inocente. Sempre há aquele espírito de porco, que logo se faz popular e começa a "espalhar o terror" escola afora e sempre há o esquisito, o diferente: esse papel caiu como uma luva para mim.

Quando se está na escola parece que o tempo é medido por ela. Não há quem não diga: Na quinta série aconteceu isso e isso, na sétima série eu fiz tal e tal coisa e por aí vai. Não vou fugir a regra agora, e caminharei pela minha infância e adolescência usando o tempo escolar como referência, já que é lá que temos as relações sociais mais determinantes nessa época da vida.

Como assumi logo o papel de estranho, na verdade, me deram esse título, me dediquei aos estudos, o que rendeu frutos. De estranho, virei CDF lá pra segunda série. Ainda não sei o que é pior, mas sempre sofri escondido por essas alcunhas que me eram colocados, já que eu só queria ser como a maioria. Eram nas redações de português que essa melancolia tomava forma. Na terceira série uma professora ficou encantada/preocupada com um poema meu. Perguntou se estava tudo bem, e eu respondi que sim (nunca quis dar mais justificativas pra me taxarem de estranho) e então ela me apresentou Cecília Meireles. Já na quarta série eu já estava apaixonado pela "escritora das almas" como eu a chamava. Era como se eu fosse descrito ali! Isso despertou ainda mais aquela melancolia que eu tentava ocultar. E pouco importa o que dissessem! Andava mesmo com as pessoas "esquisitas", vestia preto e ouvia rock'n roll, chorava em público se sentisse vontade, mas estava sendo eu mesmo!

A arte sempre guiou minha melancolia, ou foi guiada por ela, não tenho muita certeza... Clarice Lispector, Nirvana, Beethoven, Renato Russo, Van Gogh, pra citar alguns exemplos.

Com o tempo fui aprendendo a conviver com a tal melancolia (afinal, era quase minha irmã gêmea univitelina) e a partir da sexta série comecei ter relações sociais agradáveis sem que ela interferisse. Cheguei até a ser popular na oitava série, mas isso me incomodava, me deixava triste. Era como se não fosse eu, era como se não combinasse comigo. De fato, me incomodou porque toda aquela alegria toda que a popularidade me oferecia ao mesmo tempo me fazia abandonar a melancolia, minha companheira de sempre!

Mudanças! No ensino médio fui para outra escola, e só levei comigo a melancolia. Já sabia domá-la até certo ponto. Em momentos eu a dominava, e em momentos ela me dominava, mas nunca atrapalhou minhas amizades (algumas das quais mantenho até os dias atuais). Se eu fazia parte do grupo dos estranhos? Provavelmente! Mas não me sentia pior por isso! Eram essas pessoas que sabiam reconhecer e respeitar os dias em que eu queria ficar sozinho no meu silêncio. Eram elas que me resgatavam de certas crises e me davam forças para temperar meu estado de espírito e não me deixar ser dominado. Eram, de certa forma, meu porto seguro!

E foi no último ano escolar, certo que a melancolia estava me atrapalhando que começou as Cruzadas! A perseguição ferrenha para destruir esse sentimento destrutivo! Eu era o perseguidor e o perseguido. Me muni de armas, aprendi diversas táticas de guerra e comecei a caçá-la!

Não pense (como eu pensei no início) que essa caçada seria breve. Quando eu pensava ter matado-a, ela chegava pelas costas e com um punhal desferia violento golpe que me enfraquecia. Sim, ela não aceitou parada essa caça, também entrou na luta! À partir daí veio uma vida de extremos: momentos de inestimável alegria mesclados com momentos de inesquecível dor. No final de uma guerra, os dois lados saem perdendo! E como os dois lados estavam em mim, essa guerra me fez amargar o pior ano da minha vida em diversos aspectos.

Fim da guerra? Os tolos, ou talvez os sabios, porque o que estão a se deparar é com mais um momento insano de minha parte, podem pensar que sim. Mas era só o início do que pode se chamar de Guerra Fria. Talvez fosse mais interessante usar um termo original para descrevê-la, mas se posso me apoiar na história mundial para me ajudar a explicar o que se passara, pra que dispender tempo e raciocícnio pra criar um termo impactante? Bem, voltando a história, não a mundial, mas essa que vos conto, ainda considerava a melancolia minha inimiga, e fui tentando destruí-la indiretamente, como os Estados Unidos fizeram com a União Soviética outrora e, pasmem, ela foi enfraquecendo aos poucos, até se tornar uma moribunda sem força pra nada.

ESTABILIDADE! Não sabem como é bom viver o real significado dessa palavra depois de anos de instabilidade! O mundo parecia perfeito! Assim foi por um, dois, três meses... Até eu perceber que o mundo estava sem graça. Era com se eu visse um filme mudo em preto e branco depois de já ter experimentado uma superprodução hollywoodiana repleta de efeitos especiais. Foi aí que caí na real que o veneno que tinha usado para enfraquecer a melancolia havia feito isso com todos os sentimentos de uma vez, me esvaziado completamente, e me deixado apenas com a lógica e a racionalidade que sozinhas não erviam para nada... Perceber isso deveria ser alimento pra melancolia e ela deveira voltar com tudo, mas não o foi.

Era como se ela bem como todos os sentimentos estivessem perdidos e que minha missão agora fosse resgatá-los. Tentei de diversas formas, mas escondi tão bem escondido que não conseguia achá-los.

Então, um belo dia (sim, tão escuro e nublado como aquele outro) decidi ir a um parque observar a natureza. Eis que deparo com um pé de goiaba e me lembro de uma história de infância. Não devia ter mais de 6 anos quando fui a uma goiabeira com alguns primos. Logo peguei a goiaba que achei mais bonita e comecei a comê-la. Não demorou muito e apareceu um bicho. Eu me senti culpado de comer a casa daquele bichinho e fiquei olhando pra ele como que pedindo desculpas. Foi nesse momento que meu primo viu a cena, jogou a goiaba no chão, pisou e falou que eu deveria pegar outra já que aquela estava estragada! Toda a felicidade do momento se desfez num tormento de melancolia e raiva, e eu chorei como se o mundo tivesse acabado (afinal de contas havia se acabado praquele bichinho).

A emoção da lembrança foi tão forte que quando voltei a mim estava chorando como aquela criança que um dia fui! Havia recuperado a melancolia, mas, por incrível que pareça, não achava isso bom, e já estava me preparando uma nova punição (foi o que eu disse no terceiro parágrafo). Me levantei do banco possesso de raiva e fiquei qustionando o porquê de tanta "burrice". Foi quando, de repente, num impulso que surge de sabe-se lá onde, lembrei de toda minha história com a melancolia (novamente repeti um trecho do terceiro parágrafo, e a história é essa que acabei de contar).

Que legal, a história se transformou em um círculo! Calma leitor apressado, vou dar finais a esse testamento que Vossa Senhoria teve paciência de ler até agora. Enquanto andava e lembrava de tudo isso e mais um pouco, minha resistência foi diminuindo, até que eu me entreguei e deitei num gramado pra observar aquele céu nublado e escuro que desde sempre me agradara! Uma felicidade inexplicável brotou de dentro de mim, mas não expulsou a protagonista dessa história, apenas estabeleceu uma convivência respeitosa com ela.

Mas por que tamanha felicidade? Bem, simplesmente cai na real que desde criança, desde que eu estava lá no útero de minha mada mãe, ganhei a dádiva de ver e viver o mundo através dos sentimentos. Sim, pode parecer que era só a melancolia ou que ela reinava, mas na verdade ela vinha acompanhada, durante todo esse tempo de felicidade, amor e uma porção de outros sentimentos que me deixavam fazer parte do quadro que era o mundo e da deliciosa arte que era viver!

Da mesma forma que eu me apegava a um desenho na parede ou a um bichinho de goiaba a ponto de sofrer tanto por eles na hora da perda eu me apegava a pessoas especiais, às tarefas que eu me propunha a fazer e à vida de forma geral, e conseguia tirar deles o que de melhor tinham a me oferecer!

Talvez só percebia tudo isso pela ótica da melancolia e talvez por isso tenha julgado-a tanto, mas ela fez parte de todo esse processo e me faz sentir vivo, assim como todos os outros sentimentos!

Como disse no início, hoje choro mas não é só a "malfadada" melancolia que transborda de mim, é uma porção de sentimentos que eu reencontrei e que deixarei que me guiem por todos os dias da minha vida!

Talvez você esteja se perguntando, mas e agora, qual será sua relação com a melancolia? Bom, descobri novas óticas, mas confesso que sou especialista nessa. Ela vai continuar lá, sendo requisitada sempre que preciso até que um belo dia nublado e escuro mude tudo novamente...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Contrato

CONTRATO DE CONCESSÃO DE AMOR PLENO


CONTRATANTE: A pessoa física e sentimental indicada e qualificada na proposta do contrato de concessão de amor pleno, mediante a assinatura do mesmo.


CONTRATADO: Carlito Dirgel S. A., incrito no CNPJ sob o número 22.160.988/2011-52, com sede em Belo Horizonte, Minas Gerais.


CLÁUSULA PRIMEIRA - DO OBJETO


1.1 Constitui objeto do presente termo a concessão de amor pleno em todas suas facetas, como estabelecida na cláusula sétima, para o CONTRATANTE a fim de suprir todas as necessidades sentimentais do mesmo durante todo o período de vigência desse contrato.


CLÁUSULA SEGUNDA - DA DURAÇÃO


2.1 O serviço oferecido terá a duração de 1 (hum) ano, iniciando em 1° de janeiro de 2011 e vencendo em 31 de dezembro de 2011.


2.2 Ao término do período contratual, o CONTRATANTE poderá renová-lo por 1 (hum) ano ou por período a ser combinado com o CONTRATADO.


CLÁUSULA TERCEIRA - DO VALOR


3.1 O sentimento será oferecido com GRATUIDADE, não devendo o CONTRATANTE arcar com nenhuma despesa financeira para adquirir o benefício.

CLÁUSULA QUARTA - DAS OBRIGAÇÕES


4.1 O CONTRATANTE assume a responsabilidade de utilizar o serviço apenas para si próprio, não devendo dividí-lo com terceiros.


4.2 O CONTRATANTE está terminantemente proibido de firmar contrato similar com outras empresas ou obter o serviço oferecido ilegalmente, sob pena de rescisão contratual.


4.3 Para otimização dos serviços prestados, cabe ao CONTRATANTE retribuir o benefício recebido na mesma moeda.


4.4 É obrigação do CONTRATADO prestar os serviços descritos na cláusula primeira única e exclusivamente para 1 (hum) CONTRATANTE.


CLÁUSULA QUINTA - DO RECEBIMENTO


5.1 Assim que firmado o contrato e desde que esteja dentro do prazo de validade do mesmo, o CONTRATANTE receberá imediatamente e de forma integral todo o serviço oferecido.


5.2 Após cerca de 3 (três) meses, os serviços prestados já estarão otimizados desde que o CONTRATANTE cumpra com suas obrigações estabelecidas na cláusula quarta.


CLÁUSULA SEXTA - DO CANCELAMENTO


6.1 O CONTRATANTE poderá requerer o cancelamento do contrato caso:


I. O CONTRATADO não cumpra as obrigações estabelecidas na cláusula quarta.


II. O CONTRATANTE não se sinta satisfeito com os serviços prestados.


III. Haja um incompatibilidade entre CONTRATANTE e CONTRATADO.


6.2 O CONTRATADO poderá requerer o cancelamento do contrato caso:


I. O CONTRATANTE não cumpra as obrigações estabelecidas na cláusula quarta.


II. O CONTRATADO se senta incapaz de prestar os serviços por obstáculos colocados pelo CONTRATANTE.


III. Haja incompatibilidade entre CONTRATANTE e CONTRATADO.


6.3 Caso a situação se enquadre em quaisquer um dos dois itens anteriores CONTRATANTE ou CONTRATADO, respectivamente, poderão requerer recisão contratual, não havendo nenhum ressarcimento financeiro.


6.4 Caso a situação não se enquadre nos itens 6.1 e 6.2 dessa cláusula, a parte lesada deverá apresentar uma justificativa plausível a ser analisada pela parte não lesada. Se as duas partes entrarem em concordância poderá ser feita a recisão sem ressarcimento financeiro.


6.5 Caso não haja concordância entre as partes e a parte lesada insista em rescindir o contrato, ela poderá recorrer a Justiça do Amor, devendo ambas as partes cumprir o que for determinado pelo órgão citado.


6.6 Em hipotése alguma (exceto quando for determinado pela Justiça do Amor) haverá ressarcimento financeiro, mas em todos os casos é aconselhável que a parte não lesada ressarça sentimentalmente a parte lesada com pedidos de desculpas e que ambas as partes mantenham uma relação cordial após o rompimento contratual.


6.7 Caso não haja tal ressarcimento sentimental e a parte lesada se sentir prejudicada poderá entrar na Justiça do Amor para requerer seus direitos.


CLÁUSULA SÉTIMA - DA DEFINIÇÃO DE AMOR PLENO


7.1 O CONTRATADO se prontifica a oferecer amor pleno de acordo com a definição dada para o mesmo nessa cláusula.


7.2 Amar o CONTRATANTE incondicionalmente.


7.3 Confiar no CONTRATANTE e dar a ele a liberdade que necessitar.


7.4 Cuidar do CONTRATANTE, oferecendo-o carinho e compreensão sempre.


7.5 Ouvir o CONTRATANTE quando necessário e apoiá-lo com palavras de conforto e gestos de afeto.


7.6 Perdoar o CONTRATANTE caso ele cometa algum deslize durante o período de vigência contratual.


7.7 Acompanhar o CONTRATANTE em todos os programas que ele desejar, oferecendo-o uma companhia amistosa e agradável.


7.8 Respeitar o CONTRATANTE e seus limites, não fazendo nada que ele não deseje.


7.9 Oferecer amizade sincera ao CONTRATANTE para que ela possa ser a base para o amor.


7.10 Satisfazer todos os desejos e fantasias sexuais do CONTRATANTE até que esse se sinta totalmente realizado.


7.11 Invadir o coração do CONTRATANTE para que ele se sinta amado e despertar dentro dele um amor tão forte quanto o que está sendo oferecido.


CLÁUSULA OITAVA - DISPOSIÇÕES GERAIS


8.1 O CONTRATANTE tem o direito de acrescentar itens na cláusula sétima desde que em concordância com o CONTRATADO.


8.2 As partes reconhecem este contrato como título executivo sentimental extrajudicial e, por assim se acharem justos firmam este contrato em 2 (duas) vias de igual teor, na presença de 2 (duas) testemunhas, elegendo o Foro de Belo Horizonte para sua execução e com renuncia expressa de qualquer outro por mais privilegiado que seja.


Belo Horizonte, 1 de janeiro de 2011




CONTRATANTE

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Assinatura

Nome legível:

CPF:

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CONTRATADO

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Assinatura

Nome legível: Carlito Dirgel

CNPJ: 22.160.988/2011-52

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TESTEMUNHA

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Assinatura

Nome legível:

CPF:

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TESTEMUNHA

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Assinatura

Nome legível:

CPF:

domingo, 26 de dezembro de 2010

Retrospectiva Amigos 2010


Um bom poeta nunca se despe do eu lírico. Eu, por não ser bom ou por não ser poeta, deixarei o Carlito Dirgel de lado por uma postagem e darei espaço ao Carlos.

2010 foi um ano bastante inconstante, mas, graças a uma série de fatores, chego ao seu fim em um dos melhores momentos da minha vida! E, por mais que eu possa parecer ou queira passar a imagem de individualista, as diversas pessoas que passaram na minha vida esse ano tiveram um papel crucial pra esse fim de ano majestoso.

Muitos continuaram na minha vida, outros entraram de forma definitiva, alguns, saíram, ou por conta própria, ou por ironia do destino e teve ainda aqueles que retornaram pro palco em que eu sou o ator principal.

E foi no convívio com essa multidão de pessoas que descobri e aprendi uma porção de coisas. Descobri novas facetas da amizade, aprendi a respeitar os meus limites e as vontades do próximo, descobri que ainda havia muito o que aprender...

Mais do que bons momentos, todas essas pessoas me proporcionaram experiências das quais eu nunca esquecerei, já que me colocaram mais em contato com o mundo e comigo mesmo. E foram tantas pessoas, tantos momentos, tanta vida, que e perderia nas memórias se fosse citar um por um.

Mas nem tudo foram flores... Algumas pessoas, por motivos que não vale a pena discutir, me proporcionaram momentos de extrema dor e sofrimento. Hoje estou no ápice, mas a montanha russa nunca foi tão oscilante como nesse ano: já estive no fundo do poço. Várias notícias ruins e acontecimentos desagradáveis se juntaram até explodirem no momento em que eu deveria estar melhor: meu aniversário. Estava cercado de pessoas especiais nesse momento, muitas delas são verdadeiros amigos, mas a carga estava tão pesada que me sentia só, e nessa solidão acabei perdendo o foco, saindo do eixo, indo para caminhos que talvez nunca devesse ter me aventurado...

Sim, a mancha negra está lá! Um teste? Talvez! Sei que passei por situações difíceis, mas novamente, foi com a ajuda das pessoas que consegui sair dessa situação que parecia não ter saída. Nesse momento as "pessoas virtuais" tomam um papel importante. Às vezes, numa conversa com uma pessoa que está distante e de quem você não espera muita coisa, acontecem algumas descobertas que mudam sua vida. Ou por te fazerem refletir em algumas posturas tomadas, ou por te colocarem em contato com sensações que você acreditava estarem adormecidas. E nesse meio tempo alguns anjos me tiraram do inferno e me mostraram o caminho do céu!

Restabelecido, e com um sentimento inexplicável pulsando dentro de mim, voltei ao convívio saudável com todos aqueles que me queriam bem. Não sei se alcancei as suas expectativas, mas tentei dividir o bom momento com todos os que torceram para que isso acontecesse!

É claro que a trajetória do ano não se resume às pessoas. Foi-se o tempo que minha vida era guiada por terceiros. Atualmente tenho minha espiritualidade e é ela quem me guia, mas não vim até aqui discutir isso. Se estou escrevendo um texto destacando a importância de TODOS os que participaram na minha vida esse ano é para agradecê-los imensamente por terem contribuído com a minha caminhada!

Mesmo aquelas que me proporcionaram um ódio mortal e que me colocaram em contato com sentimentos destrutivos e vingativos, sou grato! Perdoo os que me fizeram mal, já não carrego mais nenhuma mágoa. Mas gostaria de dar um MUITO OBRIGADO especial para aqueles que o tempo todo estiveram do meu lado com boas intenções e fizeram com que minha vida ficasse melhor!

Não citei nomes, pois iria esquecer muitos, e coloquei uma só foto de um passeio que foi muito agradável, pois não caberia e eu nem teria fotos com todos que desejasse colocar. Mas se você está lendo esse texto é porque está incluído nisso tudo e merece o meu agradecimento.

Para o ano que se aproxima, resta esperar o que está por vir, mas saiba que será sempre muito bem vindo se decidir continuar ao meu lado!

Grato,

Carlos.



sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Bom Velhinho

É Natal!

A família está toda reunida. Fogos estão a explodir nos céus e a bela mesa de Natal que ficara intacta até o momento começa a ser atacada por devoradores ferozes. Aquela famosa tia chata grita estridentemente que está na hora do amigo oculto, e nessa algazarra familiar eu vou discretamente para sala, perto da árvore, fazer o que eu faço todas as noites de Natal: esperar Papai Noel!

A primeira vez foi aos os 5 anos. Minha avó me contou a fábula pouco antes de me colocar pra dormir na noite do dia 24 de dezembro. Encantado com a magia, não consegui dormir, e quando ouvi o sino da Igreja badalar a meia noite, fui de mansinho para junto da árvore esperar o bom velhinho. Nessa noite eu não o vi. Pensei ter chegado atrasado, pois os presentes já estavam sob a árvore. Fiquei triste, mas esperei meio impaciente o outro Natal pra poder ver o Papai Noel. Dessa vez me escondi atrás do sofá, e fui antes da meia noite, mas novamente ele foi mais rápido que eu.

Ano após ano a história se repetia, e eu bolava meu plano mirabolante para ver Papai Noel. Aos nove anos cheguei a arrumar comida para as renas com o intuito de atrasar a sua partida, mas não obtive sucesso. Acho que o dia que mais chorei foi aos 11 anos quando, as vésperas do Natal, um amiguinho me disse que Papai Noel não existia, que era coisa de criança e que só idiotas acreditavam nisso. Queria provar que ele estava errado, então, nesse ano, fiquei sentado no sofá, em frente da árvore de natal durante todo o tempo, desde as 20 horas, e, novamente, ele não apareceu. E eu chorei. Chorava como um bebê faminto, minha mãe fazia de tudo para me acalmar, mas nada era suficiente e, engasgando no choro, acabei pegando no sono.

A tristeza me acompanhou nos dias que procederam o Natal. Era como se uma estaca tivesse me perfurado e permanecesse ali. Queria chorar, mas segurava em soluços para não ser alvo de gozações. Como assim ele não existia?

Foi um golpe duro, mas continuei com a esperança. Ano após ano, a meia noite, lá estava eu perto da árvore esperando a visita inesperada. Nem os calores da adolescência me tiravam do "posto sagrado". Aos 15 anos, quando estava prestes a beijar a menina que paquerei o ano inteiro, as badaladas começaram a tocar, e eu corri desesperadamente para não perder aquele momento que para mim era tão especial!

Ao passar do tempo a espera foi se tornando apenas tradição. Ao soar dos sinos eu melancolicamente me aproximava da árvore e chorava a tristeza de infância. Por incrível que pareça, aquilo ainda doía... Como assim Papai Noel era só uma invenção?

E foi com esse mesmo lamento que me aproximei da majestosa árvore esse ano. Como tinha ficado bonita! O curso de design da minha irmã já estava surtindo efeito. Fiquei 5 minutos observando a árvore e com aquela esperança infantil já agonizante, mas não ainda morta. Desiludido, abaixei, peguei o presente com meu nome (minha mãe ainda mantinha esse costume) e fui tomar um ar lá fora, já que a algazarra familiar não estava muito compatível com meu momento introspectivo.

Sentei na calçada com o presente ainda fechado e comecei a observar as belas decorações. O espírito natalino ainda persistia, mas e o Papai Noel? No meio dessa revolta, vejo um menininho saindo correndo de uma casa e sentando numa escada do outro lado da rua. Preocupado com a cena, me aproximei e perguntei o que havia acontecido. Choroso, o menino me contou que haviam acabado de revelar a ele que Papai Noel não existia e quem dava os presentes eram os parentes. Instantaneamente voltei a minha infância, e senti aquela fincada no peito. Mais uma criança se desiludia... No momento fiquei sem ação. Pensei em contar a minha história, mas os prantos do menino não deixariam. Foi quando, num impulso de fantasia, pedi pra que ele ficasse calmo e falei que tudo o que tinham dito era mentira. Falei que Papai Noel existia sim, mas ele tinha tido um probleminha esse ano e não conseguiu chegar a tempo me dando a missão de entregar o presente para o garoto. Peguei meu presente e entreguei pro agora desconfiado garoto. Eu estava tenso, pois imaginei que minha mãe tivesse comprado um perfume e isso não é presente de criança, mas quando ele abriu pra sua (e minha) surpresa, era uma miniatura alemã de uma Ferrari que eu estava namorando a muito tempo. O menino pulou de felicidade, e eu me senti meio culpado de prolongar a fantasia dele. Foi nesse momento que ele me deu um forte abraço e disse: Obrigado, eu sabia que Papai Noel existia, fala pra ele que não importa o que me disserem, eu vou sempre acreditar!

O menino saiu correndo de volta para a casa contar as boas novas e eu, ainda atordoado e lamentando a perda da Ferrari, voltei pra casa e encarei novamente a árvore. De repente uma alegria repentina tomou conta de mim: PAPAI NOEL ESTAVA LÁ! Não, não era um velhinho gordo, vestido de vermelho e com um saco de presentes nas costas, naquele momento era eu! Papai Noel existia, e ele se manisfestava nos mais simples atos! Estava dentro da gente todo o tempo, mas muitas vezes, por egoísmo ou falta de tempo não o deixávamos aparecer. Levar felicidade ao próximo e ver nascer um sorriso no rosto choroso e alegria num coração partido me fez ver o Papai Noel que havia dentro de mim, e nessa explosão de felicidade corri até a cozinha e gritei como se estivesse comemorando um título:

PAPAI NOEL EXISTEEEE!!!



Nesse Natal, deixem que o Papai Noel que há dentro de vocês leve alegria a todos que amam! Eu garanto que felicidade que sentirão será imensa!

FELIZ NATAL!


C. Dirgel

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Conectado?

É sexta-feira. Acabo de voltar do cansativo dia de trabalho e, depois de um banho refrescante, já tenho destino certo: a internet!

Ahhh, não há prazer melhor depois de uma semana desgastante! Abro o orkut, começo a compartilhar vídeos no facebook, interajo com a galera no twitter, respondo aquelas perguntinhas espertas do formspring, vejo as fotos novas do pessoal no Badoo sem contar os inúmeros blogs e fotologs que eu sigo e comento puritanamente e o deus MSN.

Passam-se uma, duas, três, enfim, várias horas e pra mim era como se tivessem passado minutos. É tanta interação, tanta coisa nova que não tem como não se apaixonar pelo mundo virtual!

Como nem tudo são flores, sexta-feira que vem terei uma festa para ir. O que eu mais queria era uma desculpa convincente pra faltar... Ver aquelas mesmas caras com aqueles mesmos papinhos furados. Argh, dá nojo só de pensar. E quando lembro que vou trocar o paraíso digital por algumas horas num lugar cheio de gente chata e desconhecida já bate aquela deprê.

Sinceramente, não sei como meus avós e meus pais conseguiram sobreviver sem essa tecnologia. E o que dizer daquelas pessoas da minha faixa etária que dispensam esse luxo? Loucura, não pode ter outra explicação!

Conheci pessoas mais do que bacanas em vários lugares do país e do mundo. Converso com quem eu quero, o dia que quero, sou amado e tenho popularidade. O que mais alguém poderia querer?

Eu não entendo como ainda podem existir barzinhos, onde um bando de ogros sentam pra beber e conversar sobre qualquer idiotice ou baladas, em que as pessoas vão pra sentir na pele o efeito Cinderela, já que entram lindas e saem um lixo!

Outro dia me perguntaram se eu sou viciado em internet, e é óbvio que minha resposta foi NÃO. Eu simplesmente sei aproveitar os benefícios da grande rede e me divirto como uma pessoa normal.

Acabei de me formar num curso virtual, e assim que arrumar um novo emprego vou comprar o meu Ipad pra me manter mais conectado! E não deve demorar, já que meu currículo é bom. Só preciso sacar qual é a dos carinhas do RH que nunca vão muito com minha cara nas entrevistas.

Outra coisa que tem me empolgado bastante é o fim de ano. Já até comecei a construir uma rede social pra as festas online só para os vips! Melhor do que ter que passar o Natal com aqueles tios e primos insuportáveis e o Reveillon em algum clube pagando o olho da cara com a companhia de pseudoamigos!

Pronto, falei! Vcs sabem que aqui no meu blog eu desabafo e falo mesmo. Bom que assim mantenho meus verdadeiros amigos por dentro de tudo!

Dá-lhe vida, dá-lhe NET!

Beijos e até a próxima, seguidores!