domingo, 1 de março de 2026

Só mais uma de amor...

E lá se vai mais uma noite!
Uma brisa mais gélida...
Um gosto mais metálico...
Um sussurro que não estava ali!

A espera sempre dilacerante!
O tempo que outrora voava,
Hoje custa a passar 
A cada nova fincada sentida.

Entre placebos e paliativos,
Palhaçarias e patifarias,
Sigo paciente,
A espera do inevitável.

Dois buquês meio murchos,
Um coala de pelúcia,
100 g de chocolate meio amargo, 
E mais alguns instantes!

Eis que numa longa inspiração,
Meio a uma explosão de cores
E a um emaranhado de sensações,
Finalmente vou ao seu encontro!

Esvoaçante como uma fada,
Tranquila como o mar de rosas,
Aconchegante como colo de mãe...

Ainda não te conheço, senhorita,
Mas agora, queira me possuir...

domingo, 16 de novembro de 2025

Finitude

O relógio marca 21:22. Subitamente sou transportado para lembranças infantis, em que horários sequenciais tinham todo um significado lúdico, que eu me desafiava para não pisar nas linhas da calçada, e que no meu universo particular imaginário eu era a Tempestade do X-men ou um professor de alunos imaginários. Volto para minha realidade. Com o chá já frio e uma pilha de provas para corrigir, percebo que vou perder a luta para o sono em breve. Ligo a vitrola e, ao som de Nara, acendo um incenso cítrico, sento na poltrona e começo a divagar... Quando foi que o mundo fantástico dos anos infantes foi atropelado pela brutalidade da vida adulta? Onde foi parar toda aquela criatividade que deixava tudo mais estimulante? Em que momento as cores foram se desbotando até que o cinza e os tons pastéis tomassem conta? As perguntas se acumulam e, velozes como um carro de Fórmula 1, vão rumando para uma possível crise existencial. A terapia é só na quinta-feira e não quero gastar uma sessão com tais questões filosóficas, já que os problemas práticos necessitam de urgência. Então, pego um rascunho no canto da escrivaninha, minha caneta xodó e me proponho a escrever. Nunca tive a audácia de me imaginar como um escritor, mas sempre tive esse hobby como válvula de escape. Olho pro papel, insinuo um título, escrevo palavras soltas atrás de uma temática, mas sem muito progresso. Decido começar a escrita para pegar no tranco, porém, depois de dois versos sem muita potência, a tinta da caneta começa a ratear... Num instinto tento um rabisco pra ver se ela volta, mas nada feito. Então a desmonto e hei que me deparo com o inesperado: a tinta acabou... Não consigo precisar naquele momento há quanto tempo tinha essa caneta, mais de cinco anos certamente, talvez até mais de dez. Não usava assiduamente, claro, afinal nesse mundo digital, objetos como canetas e vitrolas são raridades. E falando em vitrola, o disco já acabou de tocar e eu nem percebi... Na falta de caneta e música, abro um uísque para estimular o sono e terminar o dia minimamente relaxado. Com o olhar perdido, vejo o incenso soltar os derradeiros fios de fumaça enquanto as últimas cinzas caem. Termino a bebida e rumo para a cama a fim de uma merecida noite de descanso. Na escrivaninha, fecho o Kindle que estava aberto com o último lançamento de Mel Duarte. Pra embalar meu sono, peço a Alexa para tocar o cd da Liniker. Pego meu celular pra dar aquela última olhada antes de dormir e então vejo as horas: 23:24. Fecho os olhos com uma vaga impressão de que nada mais vai ser como antes...

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

(r)Existo

E então desapareceu!
Delicadeza,
Sensibilidade,
Melancolia...

Imposição voraz
Da dura realidade
De concretos torpes
E inflados sifrões.

Entre vultos
E viagens,
Vaguei vigilante
Pelo vazio sem fim...

Um seca voraz
Estampava a paisagem
Árida e fugaz
Do profundo interior.

Nem as brisas
Nem as brumas 
Acalentaram os silenciosos 
Gritos de socorro...

No jazigo discreto,
O neon de desespero
Anunciava, temente,
Um inverno prolongado.

E as vísceras, obedientes,
Teciam vagarosamente
Um confortável caixão 
Para as lascividades.

Num banquete farto
De monotonia,
Festividades intermináveis
Fizeram morada.

O suspiro final
Se confundia 
Com os irregulares 
Movimentos de inspiração.

E no soar das trombetas 
Se ouviu ao longe
Uma suave melodia:
Seria a marcha fúnebre?

Entre partilhas,
Lembranças,
Saudades e amores:
Um despertar!

De olhos semicerrados
E ainda zonzo e confuso,
O coma pede renúncia 
Ante o reinado da re(e)sistência.

sábado, 12 de julho de 2025

Ponto final

De repente o fim!
Mas quantos fins?
A aranha segue tecendo
uma complexa teia...

Metamorfose silente
No escuro casulo
Que alberga o frio
cadáver de outrora...

E na crua lápide 
Perpetua-se solitária 
A contraditória 
epígrafe final:

"Jaz nesse leito
o protótipo torto
de tudo aquilo
que ainda não fui"

Os trovões dissipam
os transeuntes
E a garoa fina encena
o véu da despedida.

Do temido mar,
Uma maré de ressaca
Entoa a sinfonia de mais
de mil orquestras!

Do úmido solo,
Emerge um delicado
Broto com ares firmes
de uma imponente sequoia!

Do tímido céu,
Uma explosão de cores
Se espalha majestosamente 
como uma anunciação:

Ah, mais um fim!
Daqueles bem agridoces
com abundante recheio
de infinitos recomeços...

terça-feira, 1 de julho de 2025

Na sua estante

Já ouvi várias vezes seu desafogo e palavras me faltam pra qualquer respirar. No atropelo dos vocábulos, só resta o fatídico clichê: Sinto muito! E não seria mentira dizer isso... Sinto muito, e talvez aí more o problema! Primeiramente, senti tanto que criei roteiros um tanto platônicos, seria a doce ilusão?! De muito sentir, experimentei o gosto amargo de uma rejeição que talvez não tenha passado de imaginação. Na expectativa de sentir algo especial, deixei de ver o espetáculo de luzes que só a Liberdade proporciona. Na vontade de continuar sentindo algo, me entreguei a um voo de borboleta, tão lindo quanto breve. Na desesperança de achar digno de sentir, fechei as comportas. Que tolice... Comportas não resistem a excessos e esse golpe foi o trinco final para uma ruptura... Como qualquer ruptura, só resta aguardar para ver os resultados... Mas se queres saber onde estás?! Lembra-te que és avassalador. E como tal, abala estruturas quando chega, acelera batimentos e se mantém vivo pra todo o sempre.  Egos e estantes são muito ínfimos pra segurar a potência de flechas dilacerantes...

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Sazonalidade

Ora aqui
Outrora acolá...
Garoa fina e duradoura,
Depois um sol de rachar!

Tal qual fina sintonia
Por eras construídas
Nas geleiras da Suíça
Que com um simples assovio
Ou um vento forte e frio
Pode, então, desmoronar...

Mas se não há concretude
Tanto faz palha ou tijolo
Quando vir o velho lobo
E jogar seu vulgo sopro
Num lampejo de desgosto
Vamos ver tudo a voar!

E a fênix pomposa,
Que do fogo poderosa
Emergiu em polvorosa
Pode numa tempestade
Encontrar calamidade
E sua chama apagar...

Já nas mortes do inverno
O galho seco e tenro
Das gramíneas ao relento
Com o sol mantém sustento
E num espicho rebento
Vai se tornar a brotar!

No pasto verde e frondoso 
Ovelha e cordeiro leitoso
Em um sumário dilema:
Se comem xilema e floema
Ou se vale mais a pena
A sombra do ipê a brilhar!

Ah o ipê! As flores! As cores!
Quebram paradigmas,
Interrompem métricas,
Hipnotizam transeuntes,
Distraem casais,
Paralisam o tempo...

E a cada primavera
O amarelo intenso
Da florzinha delicada
Alerta em serenata
Que lá vem mais revoadas
E novo regozijar!







sábado, 19 de agosto de 2023

Distopia

O fraco sol entre nuvens,
O vento ríspido e gélido
Anunciam a tempestade
E com ela a morte de um sonho.

As carícias e afagos,
Os elogios e afetos,
Os gozos e os sentimentos
Ruíram num mar de lama.

No armário agora jaz
O frio anel de brilhantes
Que sequer teve a chance
De aquecer entre seus dedos.

Vendaval de sensações
Encabeçadas pela culpa
De ter feito meu tudo,
Mas, ainda assim, seu nada...

Idealizações implodidas,
Realidade escancarada,
Mas uma vez estapeado
Por aquilo que não se consegue ver...

Até quando habitar nessa distopia?!
Até quando me autossabotar?!
Até quando alimentar vãs expectativas?!
Até quando viver num casulo?!

A estação ainda não virou,
Mas a borboleta precisa voar...

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Amor com poréns

Amor: para muitos abstrato,
Há quem diga ser concreto,
Mas não há sábio que diga
Se tem rumo ou canto certo.

Os músicos romantizam,
Os poetas o declamam,
E os casais enamorados
Será mesmo que se amam?

Há quem sofra por amor,
Mas por que sofrer se é bom?
Tem quem pense em morrer!
Que amor fora de tom...

No amor de modernidade
Não se deve confiar!
É match e rolê complicado
Só pra se decepcionar...

E o amor imaginário
Que nem sabe quem tu és?!
Lhe tira sorrisos do rosto,
Mas finca espinhos nos pés...

O amor de longa data
Não vê noite ou sol raiar,
Mas e se uma madrugada
O intenso fogo apagar?!

Amor sem eira nem beira
Nos cafundós se perdeu,
Parece que todos se amam
Todos eles, menos eu...


sexta-feira, 3 de março de 2023

Só mais uma noite de verão

Era fim de tarde de sábado. Recusei dois convites sociais enquanto tomava um restinho de kombucha e assitia trechos de filmes repetidos num canal qualquer. Entre uma e outra mexida no celular, li umas conversas antigas com dates do passado e resolvi que seria melhor deitar mais cedo. Um banho, os creminhos de pele que a idade pede, uma boa escovada nos dentes e, enfim, cama. O silêncio ensurdecedor daquela casa no interior só era quebrado por uma ou outra gia e eventualmente uns pernilongos perdidos, mas não naquele dia. O travesseiro, astuto que só, parece ter ativado as engrenagens do cérebro e o sono, que já estava ali durante o ritual pregresso, num instante desapareceu. Sabe aqueles dias que revemos todas as nossas escolhas e nos punimos por todas as mazelas do mundo? Era hoje! Toda fortuna gasta em sessões de terapia e eventuais remedinhos pareciam só um amontoado de decisões precipitadas... As mesmas velhas tormentas "repaginadas" voltavam a me assombrar e eu pouco sabia como sair daquela arapuca autóctone! Num desespero quase infantil por migalhas de sono, decido contar carneirinhos, e, quando chego aos 37, uma onda de frustração me abate de vez. Seria eu um fracassado por já estar nessa idade ainda sem a estabilidade financeira e emocional que se espera em um adulto?! Um suspiro prenuncia a certeza de uma madrugada insone. O relógio marca 2:39 e decido me levantar para fazer um lanchinho. Na geladeira vazia encontro um iogurte vencido e decido encarar. Enquanto como, penso em quantas validações tenho buscado sem nenhum sucesso e a tristeza se aprofunda ainda mais... Ciente de que o sono é um artigo de luxo fora das minhas pretensões, ligo novamente a TV. Inexplicavelmente, vejo a cena de Alex apanhando do mendigo, já na parte em que o protagonista de Laranja Mecânica está sofrendo as mazelas reversas que outrora causou. Estaria eu colhendo os frutos das minhas péssimas escolhas?! Decido fazer um chá, mas o gás acaba no meio do preparo e deixo aquela água morna no forno. São tantas relações frias que tenho vivido que a temperatura daquela água até funcionaria como um agasalho... Volto pra cama enquanto o relógio já marca 4:04. Tento uma música, e a ironia do destino traz Sozinho, de Caetano 🎶 "eu fico imaginando nós dois" 🎶 nós dois quem?!  Ao perceber que minha situação é pior que eu imaginava, os primeiros raios de Sol chegam para dar o veredicto de mais uma noite perdida. Nunca fui bom de dormir na claridade, então levanto e vou fritar uns ovos e passar um café. Assim, frustrado, reinicio mais um dia esperando que as fadas e os elfos tragam notícias melhores num futuro breve...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Fugaz

Quente.
Frio.
E de repente desapareceu!

Pétalas murchas das rosas anunciam que ela morreu.

Paixão maratonista!
Cruzando a chegada
logo após a partida.

Partiu.
Se foi.
Escafedeu!

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Disruptivo

Tudo secou,
A fonte não jorra mais,
E a terra arrasada
Pede misericórdia.

A infinitude da alma
Viu o ponto final.
Distúrbios insones
De melancolia sem fim...

Entre perguntas e exclamações,
As negativas venceram!

Teus beijos não mais me tocam,
Teus carinhos não mais me afagam,
Tuas palavras não mais me emocionam,
Tua imagem não mais me ilumina...

O deserto já se anuncia
Desidratando o corpo em lágrimas.
Em resistência está o coração,
Gélido a esperar a próxima estação!

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Trôpego

E a torpe tempestade

Me fez atento.

Trovões trouxeram trevas

E nenhum acalento.


Tamanho foi o trauma,

Desesperança…

Tácita turbulência,

Profunda lança!


Estático no tempo,

Entregue ao vento,

Tragado no momento,

Um excremento!


Tenaz tormento,

Tu tens dó deste traste

Ou trucidarás por dentro?


No tronco da tristeza

Floresce a tragédia…

Tramóias divinas 

Ou anedotas funéreas?


E tudo termina em um

Vil atropelo?!

Ou a trama ainda tece 

Algum desmantelo?


Trafego em sentimentos,

Trepido em lástimas,

Tripudio em culpa,

Tropeço em lágrimas…


Truque do destino?

Talvez!

Tirania drástica?

Estupidez…


Trago na vida 

A sorte dos tolos

Ou irei desbravar

O caminho dos trôpegos?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Contrações


Seca,
Devastadora de cursos d'água
Que faz minguantes
As noites de lua cheia.

Cheia,
Inundando sonhos
E botando por terra
Frutos de vid'inteira.

O tropeiro 
Da seca se faz seco
Sem riso no rosto,
Sem eira nem beira.

O ribeirinho
Da chuva transborda em lágrimas
Desolado,
Desabrigado.

Seca e cheia
Na desgraça se encontram
Vazias de razão,
Cobertas de porquês.


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Madrugada

Madrugada silente que invade o sono dos angustiados e passeia pelos distantes rincões da mente, por que insistes em revirar tão fundo poço? Revisitaste tal aposento há muito abandonado e recuperaste memórias que ficaram soterradas em um passado melancólico... De onde tiras tamanha força? Por que és tão cruel? Arrancaste lágrimas de um deserto sentimental inerte e causaste uma revolução em um campo até então estéril. Tu vens como um oásis ou como uma tempestade de areia? Queres sepultar de vez tais reações ou reavivar as comatosas esperanças?

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Nebulosas

Esplêndidas nuvens
Em céu de vazio horizonte
opacionam a grande lua
E estrelas a brilhar

Adensam-se no canal
De beira mar agitado
Anunciando que o calor
não mais tarda a zarpar

Irrompem-se em trovões
Num recital de tambores
Espantando humanóides
Salientes a cantar

Se derramam majestosas
Em tromba D'água real
atraem almas em bolores
Tão sedentas a dançar

Devagar então se extinguem
Entre formas mil e cores
Na certeza de que amores
Sim souberam conquistar

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

(In)Definição

Amor De substantivo abstrato a sentimento concreto De corrosivo a energético De incoerente a conclusivo Ah, o amor Que edifica destruindo Acalma esbravejando Ampara em queda livre Definitivamente amor Sedutor Instintivo Avassalador Finalmente amor Realizador de sonhos Emancipador de existências Acolhedor incansável de almas

Decadência


A sensatez bate a porta 
Mas a insanidade já faz morada 
Doces dias de solidão 
Cuja melancolia bastava 

Dos porões da realidade 
Aos confins dos desejos 
Outrora camuflados 
Em tumbas exumadas 

O vento já enfraquece 
A resiliente folha pendurada 
E mais do que breve 
O frio outonal reinará 

Sucumbem convicções 
Em campos de interrogações 
Os fins não mais são capazes 
De justificar os meios vis 

Calo-me em meio a lágrimas 
Busco sentido nas nuvens 
O chão deixa de ser o limite 
Da não mais sutil imaginação 

Me perco no horizonte 
Pra talvez me encontrar adiante 
Um pântano de sentimentos 
Uma areia movediça de mim 

Hei de aquiescer 
Quiçá crescer 
E na brisa derradeira 
Irá uma flor nascer?

Suposição n.1

E se de repente Ela viesse me visitar Com seu manto majestoso num fim de tarde? Seria cauteloso com os preparativos: Decoraria a sala de estar Vestiria meu smoking preferido Escreveria versos sentimentais Apreciaria os noturnos de Chopin Me emocionaria com as aventuras de Amelie Degustaria um confit de canard Acompanhado de um tradicional Lafite Me deliciaria com a chuva O ruído tranquilizante na janela O cheiro suave de terra molhada O acariciar de seus pingos sobre a pele Me aqueceria na lareira vislumbrando entre as fagulhas Um longa metragem de emoções E desventuras baseado em fatos reais Me despiria de todos infortúnios
Iria para cama nu em pelo A espera daquela que me faria Encontrar a outra face da felicidade De olhos cerrados Sentiria o roçar de seu manto retirado As carícias dos seu longos e gélidos dedos O prazer da união de dois corpos sedentos E num rompante de prazer Sentiria o calor de meu corpo Se esvaindo pelo órgão fálico em um longo e último suspiro Já tendo a cama como jazigo Seria o mais vivo dos seres Em alguma dimensão que nem Os sagazes poetas ousam descrever

Ao êxtase

Sussurros ao entardecer
Prenunciam apocalípticas implosões
De vorazes, ardilosas
e pretensiosas sensações.

Quimeras colossais
Apoderam-se de almas banidas
De seus excrementais
Paraísos artificiais.

Sob a cólera dos deuses inventados,
Desnudam-se os fiéis incrédulos,
Inflados de fantasias
E pecaminosos condimentos.

A tsunami em forma fálica
confere tesão a uma noite
Plenamente regada

De proibidos prazeres.

Silêncio...
Ofegação...
Gemidos...
Gritos!


Miscelânea de sentidos
Reunidos em uma tênue fronteira!
Ápice de prazer resenhado
Em jatos propulsores de plena satisfação...


Carícias..
Olhares...
Silêncio.


O cruel coração universal
Ritmado em infinitos tic-tacs
Teletransporta-nos vagarosamente
À fiel e incômoda realidade.

Insossa.
Dura.
Branca.

Eis que em instantes fugazes,
Vis lembranças banham a mente
De ardilosas recordações.

O desejo temporariamente aterrado
Recomeça a brotar
E vigorosos caules atiçam
A sobre humana vontade de ser humano.


Um minuto.
Um contato.
Um até mais.


Por que prender-me ao calabouço
Se posso esbaldar-me à beira do cais?

sábado, 25 de novembro de 2017

Vendaval

Vento voraz que varre colinas
Vertendo dor em tranquilo vale.
Vós sois o mais cruel sopro
Usurpando a mais nobre das vidas


Que viestes veloz, é o seu direito!
Mas derrubastes a mim, que sou vil...
Cavastes agora profundas valas
Avariando incontáveis corações


Não vistes o mal que causastes?
Sabes como reverter tal covardia?
Me convenço que não mais me ouve...
Partistes deixando imenso vazio.


Ah, vento, por que tão vadio?
Uiva sobre meus prantos
E num deboche convida
O pesaroso crocitar dos corvos.


Pensas que vou sucumbir? Talvez...
As trevas de um anoitecer sinistro
Traçam planos maquiavélicos
Cavalgando rumo a uma caverna fria


Cantastes vitória, estimado vento!
Zombastes de nossos sentimentos
Cravando uma estaca crua e seca
No peito dos servos da amada rainha


Vosso estrago já estás feito
E se quiseres ir agora, vá!
Nem ao menos fostes convidado...
Mas se quiseres ficar, observe.


Veja que há um mar de lágrimas
Que vazam carreando amor e gratidão.
Veja que há aviltante desespero,
Mas nas veias o fluido vermelho carrega a semente!


Ah, vento, arrancastes a árvore mãe,
Mas teus frutos já floresceram!
Trouxestes o inverno rigoroso,
Mas com o tempo a Primavera virá!


E mesmo vós, hoje odiado,
Voltarás como brisa,
Trazendo memórias vívidas
A uma floresta verdejante!


Caro vento, assim termino minha carta a vós
A vós
Avós
Avó
Vó.